25.6.17

José Watanabe (Fábula)





FÁBULA



En el cauce del río seco
una espigada yegua orina sobre un sapo agradecido.
Yo, que voy de paso, sonrío y recuerdo
                    una antigua ley de compensaciones
de la magia: más feo el sapo
más bello y deslumbrante el príncipe.

Ay, pero la abundante orina de la yegua no es amor
y, aunque amorosamente regada,
                  no rompe los hechizos más perversos:
es sólo un poco de agua ácida en esta sequedad solar.

La yegua se aleja trotando aliviada, moviendo
las ancas
como una muchacha. Yo voy por los espinos resecos
recordando al sapo:
                       el pobre no tenía encantamiento
y se quedó solo
y soportando su fealdad inmutable
                                               y ahora meada.

 
José Watanabe




No leito do rio seco
uma égua urina sobre um sapo agradecido.
E eu, que vou a passar, sorrio e recordo
uma lei antiga de compensações 
da magia, quanto mais feio o sapo
mais belo e deslumbrante o príncipe.

Ah, mas a abundante urina da égua não é amor
e, mesmo amorosamente regada,
não quebra os feitiços mais perversos,
é apenas um pouco de água ácida nesta sequia solar.

A égua afasta-se choutando aliviada, a mexer
as ancas
como uma moça. E eu vou pelos ressecos espinhos
a lembrar-me do sapo:
o coitado não tinha encanto
e ficou sozinho,
a sofrer sua fealdade imutável,
mas agora mijada.


(Trad. A.M.)


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24.6.17

António Osório (Ainda me acolho)





AINDA ME ACOLHO



Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.



António Osório

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23.6.17

Jesús Lizano (As ratas)





LAS RATAS



Las ratas
insidiosas, peludas,
voraces, ingratas,
innumerables, puntiagudas,
alucinantes, piratas,
escurridizas, zancudas,
por los rincones, por las escalinatas,
cataratas de ratas,
expectantes y mudas,
selva de dientes, de patas,
enormes, menudas,
mortificantes, peliagudas,
a saltos, a gatas,
agobiantes, cornudas,
lúgubres, insensatas...
Las ratas:
¡las dudas!

Jesús Lizano




As ratas,
insidiosas, peludas,
vorazes, ingratas,
inumeráveis, pontiagudas,
alucinantes, piratas,
escorredias, pernudas,
pelos cantos e escadarias,
cataratas de ratas,
expectantes e mudas,
selva de dentes, de patas,
enormes, miúdas,
chatas, bicudas,
aos saltos, de gatas,
angustiantes, cornudas,
lúgubres, insensatas...
As ratas:
as dúvidas!


(Trad. A.M.)

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22.6.17

Jenaro Talens (Anjos sobre Roma)





ÁNGELES SOBRE ROMA



(II)

Recorrerte sin pausa, como quien
se despereza al sol; ser el sendero
donde inscribir tus huellas. Heme aquí,
acurrucado junto al estallido
que amaga el roce de tu piel.
Cobijo mi pasión a la intemperie
bajo el árbol frondoso de tus sensaciones,
esa implosión de un cuerpo
en el que busco anclarme. Vieja luz
que alumbra, sin embargo, todavía.


(IV)

Daré tu nombre a cuanto vea,
me aferraré a la imagen de tu cuerpo
como la yedra al sol de mediodía.
Igual que el mirlo al recorrer las hojas
busca en la nervadura
los gusanos, iré
a trabajar los surcos,
a sembrar la memoria
si es cierto que para morir,
como dijo el anciano,
basta sólo un ruidillo:
el de otro corazón
(¿mío, tuyo?) al callarse.
   (...)


Jenaro Talens




(II)

Percorrer-te sem descanso, como quem
se espreguiça ao sol; ser o carreiro
onde assinalar o teu rasto. Eis-me aqui,
agachado junto ao estampido
que ameaça o toque da tua pele.
Minha paixão abrigo-a da tormenta
sob a árvore frondosa de teus sentidos,
essa implosão de um corpo
a que tento segurar-me. Velha luz
que ainda ilumina, apesar de tudo.


(IV)

Darei teu nome a tudo quanto vir
e hei-de agarrar-me à imagem do teu corpo
como a hera ao sol do meio-dia.
Tal como o melro correndo as folhas
procura os bichos na nervura,
irei abrindo os sulcos,
a semear a memória,
se certo é que para morrer,
como disse o outro,
basta só um barulhinho,
o de outro coração
(meu? teu?) ao parar.
   (...)

(Trad. A.M.)

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21.6.17

Luís Amaro (Tarde)




TARDE



Vago sabor de outono
E de coisas extintas.
Nem desejos nem dor...
Meu coração esquece.

No ar parado voga
Talvez uma saudade
De tudo que perdi,
De tudo que não fui.

Ninguém chama por mim
Nem chamo por ninguém.
Instante calmo e triste...
Como a vida está longe!

No dia húmido cai
Um silêncio dormente.
Uma música ausente
Meu coração embala.


Luís Amaro


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20.6.17

Javier Salvago (Fim de festa)





FIN DE FIESTA



Al fin solos, vida. Terminó la fiesta
y no queda nadie que pueda obligarnos
a forzar sonrisas, ni a inventar molestas
mentiras piadosas. Todos se han marchado.

Vete desnudando sin miedo. Conozco
las viejas arrugas de tu triste carne.
Las he acariciado. Sé lo que tu rostro
oculta debajo de ese maquillaje.

Al fin solos, vida. La casa en silencio
y tú y yo desnudos, callados y ausentes
—juntos por rutina, más que por deseo—
como dos amantes cansados de verse.


 Javier Salvago




Enfim sós, vida. Terminou a festa
e não resta ninguém que possa obrigar-nos
a forçar sorrisos, ou a inventar incómodas
mentiras piedosas. Todos se foram.

Vai-te desnudando sem medo. Conheço
as velhas rugas de tua carne triste.
Acariciei-as. Sei o que teu rosto
oculta por baixo da maquilhagem.

Enfim sós, vida. A casa em silêncio
e tu e eu nus, calados e ausentes,
 - juntos por rotina, mais que por desejo -
como dois amantes cansados de se verem.


(Trad. A.M.)

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19.6.17

Javier Lasheras (Um postal para o futuro)





UNA POSTAL PARA EL FUTURO



Si algún día inevitablemente
o si alguna noche por casualidad
nos encontráramos, seré salvaje
y a dentelladas te probaré
por todas partes.

¿En qué ávido animal me has convertido!


Javier Lasheras






Se um dia sem remédio
ou uma noite por acaso
tropeçarmos um no outro,
vou-me fazer selvagem
e às dentadas hei-de
morder-te por todo o lado.

Que ávido animal de mim fizeste!



(Trad. A.M.)

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