20.8.17

Mário de Carvalho (Marta)






Bonita que fora mana, doces lhe iam agora e entristecidas as feições, com dois arcos já descaídos melancolicamente sob os olhos, da linha dos lábios, mais resumida e vincada que outrora, nascia um irradiar de breves pespontos, ainda sumidos, não tão flagrantes como a pele do pescoço já a querer desaprumar. 

Ao fim de tantos anos, só agora reparava nos traços da irmã, figura tão naturalmente comparte da sua vida que não considerara sequer a eventualidade de lhe apreciar as feições, mormente pela inutilidade de fazer valer essa avaliação.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-II
(2008)


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19.8.17

Juan Vicente Piqueras (Nomes apagados)





NOMBRES BORRADOS 

             La mente no es un lápiz para tomar apuntes,
             es una goma de borrar.
                                                    (Marko Vesovič)


Mi padre fue perdiendo poco a poco el lenguaje. 
Y empezó por los nombres. Lo primero
que olvidó su cerebro no fueron los adverbios
ni los pronombres no los adjetivos,
como uno estaría tentado de creer,
ni las motas de polvo de las preposiciones,
sino los sustantivos.

La manzana dejó de ser manzana,
el vaso pasó a ser eso,
y quienes se acercaban dejaban de llamarse.

La muerte comenzó su labor minuciosa
robándole los nombres,
borrándolos, poniendo
 
en su lugar un esto o un aquello,
un dame, un balbuceo, un gesto de la mano.

Lo último que se pierde son los verbos,
los verbos que se mueven en la sangre
como peces hasta que acaba el mundo,
hasta que ya no puede el cuerpo con su alma.

Los adjetivos son afectuosos,
visten de amor lo que miran
y por eso perviven.

Pero los nombres se esfuman.
Y la sustancia de los sustantivos
es agua de borrajas, niebla, torres de humo.

La manzana deja de ser manzana.
La palabra dolor ,
quién nos lo hubiera dicho.
no significa nada.


Juan Vicente Piqueras






O meu pai foi a pouco e pouco esquecendo a língua.
E começou pelos nomes. O que primeiro esqueceu
não foram os advérbios,
nem os pronomes ou os adjectivos,
como podíamos pensar,
nem os grãos de pó das preposições,
mas os substantivos.

A maçã deixou de ser maçã,
o copo passou a ser isso
e as pessoas que se aproximavam
deixavam de ter nome.

A morte começou seu labor minucioso
por roubar-lhe os nomes,
apagá-los, pondo
no lugar deles um isto ou aquilo,
um dá-me, um balbuceio, um aceno da mão.

O que se perde por último são os verbos
os verbos que se movem como peixes
no sangue até que o mundo se acaba,
até que o corpo já não pode com a alma.

Os adjectivos são afectuosos,
vestem de amor aquilo que visam
e por isso pervivem.

Mas os nomes esfumam-se.
E a substância dos substantivos
não passa de água, de névoa, de onda de fumo.

A maçã deixa de ser maçã.
A palavra dor,
quem nos havia de dizer,
não significa nada.

(Trad. A.M.)


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18.8.17

Juan Luis Panero (Epitáfio diante do espelho)





EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO



Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Juan Luis Panero




Dura há-de ser a vida para ti,
que sacrificaste as crenças a uma estranha honradez,
para ti, cuja única certeza é a lembrança
e, por isso, a tumba mais aziaga.
Dura há-de ser a vida, quando os anos passarem
e destruírem por fim a pátria ingénua da tua adolescência,
quando vires, como hoje, este fantasma
que antes te consolou com sua beleza.
Quando o amor, como um vestido rasgado,
não te possa cobrir a tristeza
e seja apenas aos olhos mais puros
um motivo de zomba, piedade ou assombro.
Duro há-de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,
a juventude, tudo aquilo que foste,
e procurar sem paixão o repouso
na surda ternura do que é débil,
na destruição que algum dia amaste.
«É a lei da vida», dizem velhos estéreis,
«e só Deus pode o pode mudar» repetem,
à luz da noite, lentas sombras inúteis.
Dura há-de ser a vida, tu que o mundo amaste,
que sonhaste possuí-lo com um olhar ou suave carícia,
quando a absurda farsa que tão bem conheces
não estiver já enfeitada do belo e efémero.
Dura há-de ser a vida até ao instante
em que velares tua memória neste espelho:
não terão já refúgio teus frios lábios
e com as mãos vazias abraçarás a morte.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

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17.8.17

Fernando Assis Pacheco (Então agora vamos ficar sem o Ruy Belo?)




ENTÃO AGORA VAMOS FICAR SEM O RUY BELO



Quando morre um poeta é fatal a ANOP
«sempre em cima do evento» debita o seu telegrama
tantos anos uma «obra ímpar» etc.
foi assim com o Ruy Belo mas o flash
pedia para se não dar a notícia o que me levou
à conclusão irresistível de que mais uma vez este
se entretinha a reinar aos cowboys
ó Ruy tu mascarado de Jesse James o vingador vingando
as malas-artes da retórica idiota
o que me levou à conclusão irresistível de que
esperaria mais pormenores para «confirmação da informação»

seguiram-se telefonemas de recurso a localizar em férias
o João Miguel Fernandes Jorge não estava
no Bombarral em casa dos pais não estava na Consolação
Lisboa: ele próprio atende e diz
que o Ruy Belo foi-se em Queluz de não entende o quê
asma ou parecido há o problema do funeral quando
mas certamente para a aldeia «João» e ele
responde baixo «sozinho» «tinha vindo tratar de una papéis»
a porra da a triste da a caca da vida que levamos sacudida sobre os ombros
passa esse dia do telegrama da ANOP os jornais afinal noticiam
redijo setenta linhas que acompanho com uma chamada de primeira página em positivo sobre rede pensando muito na hipótese de um dia um colega meu sacar da máquina um telex ou ouvir ao bigophone olha o gajo marchou dá lá recados
e o chefe (o meu sucessor de carteira) breve a «duas colunas com foto» havendo apesar de tudo um certo cuidado porque era da «malta»
e tu que eras da malta não tive cuidado nenhum fui um coiro devia esmerar-me
devia mesmo esmerar-me

então agora ficamos sem o Ruy Belo


Fernando Assis Pacheco


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16.8.17

Efraín Huerta (Seis da manhã)





SEIS A.M.



Y así
Murmuraba:
«Ya es lunes
Mañana martes
Y el miércoles
Está encima
Pronto
Será jueves
Y luego
Viernes
Y aún
No he
Hecho
Nada
         De trabajo».

Efraín Huerta




E assim
murmurava:

“Estamos
na segunda,
amanhã terça,
quarta
está quase,
em breve
será quinta
e depois
sexta
e eu ainda
não fiz
a ponta
      de um corno”.


(Trad. A.M.)

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15.8.17

Claudio Bertoni (Lar doce lar)





HOGAR DULCE HOGAR



el cáncer
la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.

morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa.

lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.

morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa


Claudio Bertoni




o cancro
a morte não seria tão ruim
se eu pudesse trazê-la para casa
se não tivesse de levantar-me
se não tivesse de sair da cama
se não tivesse de ir de ambulância
se não tivesse de ficar internado
de viver no meio de gente desconhecida
de prescindir das cobertas
da cor das cobertas de casa
do calor e da cor das cobertas de casa.

morrer não seria tão ruim se tudo se desse em casa
e com os de casa
se eu tivesse a sorte de ter uma casa.

o pior do cancro e da morte é a burocracia e a agitação
das mudanças de roupa e o frio dos corredores e o frio
do olhar dos estranhos (dos que não sofrem porque tu sofres,
dos que não sofrem porque tu vais morrer)
e a indiferença das ruas e dos muros das ruas
e a indiferença mortal do hospital e de tudo o que lambe
e cobre por dentro um hospital.

morrer não seria tão ruim
sofrer não seria tão ruim
se a gente sofresse em casa
se soubesse que nada nem ninguém nos tirará
- em caso de morrer ou sofrer -
                                               de casa.


(Trad. A.M.)


>>  Memoria chilena (tudo+algo+obra toda ou quase) / Angelfire (12p) / Wikipedia

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14.8.17

Helder Moura Pereira (Esse vidro)





ESSE VIDRO



Janelas rompem
na casa, uma flor
no vestido, esse vidro
nos olhos. Janelas
sobre o que vês,
apenas o breve
relance de uma face
perdida, apenas
uma frase de jardim
ou uma rosa de julho.
Janelas rompem
nos teus olhos
e a roda do vestido
ilumina esta manhã.
Quando apontas
sou eu que venho
subindo as escadas,
sou eu que sinto
todas as mãos
por esta pele.
Aqui começa a cor
das telhas, o verde
musgo, a orientação
das imagens. Chegas
do lado mais esperado
da cidade e não
te encobre a bruma
definindo a linha
das janelas. A que
hesito entre o gesto
de mostrar a face
que regressa e adivinha.
No vidro dos olhos
a flor do vestido, nos
degraus o súbito
desejo de janelas
tapando a morte.



Helder Moura Pereira

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