25.5.17

Machado de Assis (A rabeca)





Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente mal.
Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça.
Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar.
Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha.
Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim.
Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele.
Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo.
Era a mulher dele; creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido.
Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. 
Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face no instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava...


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

24.5.17

Gloria Fuertes (Vê lá, que maluquice)





Ya ves qué tontería, 
me gusta escribir tu nombre, 
llenar papeles con tu nombre, 
llenar el aire con tu nombre; 
decir a los niños tu nombre 
escribir a mi padre muerto 
y contarle que te llamas así. 
Me creo que siempre que lo digo me oyes. 
Me creo que da buena suerte: 
Voy por las calles tan contenta
y no llevo encima nada más que tu nombre.


Gloria Fuertes





Vê lá que maluquice,
gosto de te escrever o nome,
encher o papel com teu nome,
incendiar o ar com teu nome;
dizer às crianças teu nome
escrever a meu pai falecido
e contar-lhe que te chamas assim.
Creio aliás que me ouves, sempre que o digo.
Acho que me dá sorte,
vou tão contente pela rua fora
sem nada por cima, só com teu nome.


(Trad. A.M.)

.

23.5.17

Gloria Bosch (Com a alma pela gorja)





CON EL ALMA AL CUELLO



Con el alma al cuello anduve mucho tiempo
en la cuerda floja
buscando el equilibrio de un trapecista
descifrando en el mapa de otros cuerpos
las huellas borrosas de mi propia historia.
Con el alma al vuelo
busqué la compañía de los espejos
el agua tibia que me saciara
de una sed antigua de querencias y deseos.
Superviviente de algún naufragio
no opté por la fuga ni el suicidio
dejé pasar las hojas del calendario
sanando heridas, corazón en mano.
Me mueve la fe de que estoy viva
llego a fin de mes sin red y con tropiezos
los tigres me saludan y me he hecho amiga
de las magas y los titiriteros.
Aunque la vida me ha dado algún zarpazo
esquivo el látigo de los malos momentos
y doy volteretas sobre la lona
si las palabras acuden a mi encuentro.
Mi vicio es escribir a ras de suelo.


Gloria Bosch





Com a alma pela gorja andei muito tempo
na corda bamba
tentando o equilíbrio do trapezista
decifrando no mapa de outros corpos
o rasto da minha própria história.
Com a alma a voar
busquei a companhia dos espelhos
a água fresca para saciar
uma sede antiga de paixão e desejos.
Sobrevivente de naufrágio
não escolhi a fuga nem a morte,
deixei virar as folhas do calendário,
sarar as feridas, de coração nas mãos.
Move-me a fé de estar viva,
chego sem rede ao fim do mês, aos tropeções,
os tigres saudam-me, fiz-me amiga
das magas e dos saltimbancos.
Certo que a vida me fez algumas feridas,
mas fujo ao látego dos maus momentos
e dou cambalhotas na lona
se as palavras vêm ao meu encontro.
Meu vício é escrever ao rés do solo.


(Trad. A.M.)

.

22.5.17

Machado de Assis (Casada)





A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado.
Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.
E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa.
Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem.
Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: "Quem são?" e um sabido explicava: "Este é o Doutor Santiago, que casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em Mata-cavalos." E ambos os dois: "É uma mocetona!"


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

21.5.17

Gisela Galimi (Estação)








El invierno termina algún día incierto.
Ni antes ni después
que finalice el frío.
No importa como lo llames,
ni la fecha que dicte el almanaque.
El invierno es invierno.
Las muchachas podrán ignorarlo
y vestir primavera en septiembre,
enamoradas de las quimeras.
Pero una mujer ya tiene su experiencia.
Todo llega a su debido tiempo.


Gisela Galimi




Termina o Inverno em dia incerto,
nem antes nem depois
de se acabar o frio.
Não importa o nome
nem a data indicada pelo almanaque.
O Inverno é o Inverno.
Poderão ignorá-lo as moças
e vestir de Primavera em Setembro,
enamoradas de quimeras.
Mas uma mulher tem já a sua experiência,
tudo vem com o tempo.


(Trad. A.M.)

.

20.5.17

Gioconda Belli (Pirilampos)





LUCIÉRNAGAS



A las cinco de la tarde
cuando el resplandor se queda sin brillo
y el jardín se sumerge en el último hervor dorado del día
oigo el grupo bullicioso de niños
que salen a cazar luciérnagas.

Corriendo sobre el pasto
se dispersan entre los arbustos,
gritan su excitación, palpan su deslumbre
se arma un círculo alrededor de la pequeña
que muestra la encendida cuenca de sus manos
titilando.

Antiguo oficio humano
este de querer atrapar la luz.

¿Te acuerdas de la última vez que creímos poder iluminar la noche?

El tiempo nos ha vaciado de fulgor.
Pero la oscuridad
sigue poblada de luciérnagas.


Gioconda Belli

[Apología de la luz]




Ao fim da tarde
quando a luz amortece
e o jardim mergulha nas últimas ondas
de oiro do dia
chega-me o bulício das crianças
à caça de pirilampos.

Correndo na relva
espalham-se nos arbustos,
gritam de excitação, deslumbrados,
e fazem roda em torno da pequena
a mostrar a concha acesa
das mãos cintilando.

Humano ofício antigo
este de querer agarrar a luz.

Lembras-te da última vez em que julgámos
poder iluminar a noite?

O tempo tirou-nos o fulgor.
Mas a escuridão
continua cheia de pirilampos.

(Trad. A.M.)

____________________

Pirilampos:
Fernando Assis Pacheco - Apanhador de pirilampos
A.M.Pires Cabral - Pirilampos-I

.

19.5.17

Corpo presente (48)






ESTÁ BEM





Queres o meu corpo?
                Toma o meu espírito

.